O perfume da brisa do papai

Era quase madrugada e o jantar daquela noite tinha sido um caprichado rodízio de pizza. Fazia tempos que não conseguíamos nos reunir em um fim de semana. Aliás, que noite agradável estava. Confirmei o tesão do momento ao estacionar o carro, trancar a porta de casa e olhar para o céu paulistano. 

– Caraaaaaca! Estrela, velho!?

Não era algo comum, não era nada comum. Noite quente estrelada e eu com aquela azia do rodízio logo pensei:

– Preciso sentar aqui e olhar esse céu. 

As pessoas estranharam. 

– Mas você vai ficar aí?

– Opa! Tá de boa! Vem também!

– Guilherme! Já tá tarde!

– Ah! Mas tá tranquilo hoje!

– É perigoso, hein?

Poxa, perigoso? Quem faria a babaquice de estragar uma noite daquela com coisas erradas? Este clima noturno inspira as pessoas! Até o mais malvado dos bandidos deixou de lado a crueldade para se declarar à mulher que o ama naquele momento. “Que roubar o quê? Eu quero fazer amor!”, certamente ele pensou colocando a arma no criado mudo.

A minha movimentação estomacal digestiva fazia parceria sonora com os pensamentos do dia de trabalho. Foram horas de desafio profissional intenso. Pessoas novas, serviço novo, aquele gostinho de adrenalina de não cometer erros e ainda por cima acertar legal. Gosto. Gosto do que faço e do que me ajuda a pagar as contas. Aquela noite me auxiliou a agradecer pelos trampos que eu tenho. 

– Parabéns! Você vai ficar aí mesmo? Vou dormir! 

– Vamo lá pra dentro, papai!

Não fui ainda. Elas foram para Morfeu. Eu ainda não. A minha digestão estava em harmonia com a brisa. Não podia sair dali. As duas pernas esticadas na calçada, olhar nas Três Marias no céu. Você aí que tá lendo está percebendo a delícia do momento. Eu sei que tá. 

Alguns vizinhos que eu nunca tinha visto se despediam de suas visitas. “Poxa, faz tempo que eu não recebo convidados…”, pensei. Não tenho uma casa ainda, né? Morar com os pais tem dessas. Mas no lar da namorada daria pra chamar uns amigos… Hmmm… A noite inspira demais. Quem sabe não rola um jantarzinho semana que vem com a rapaziada e as respectivas? 

Gordo é fogo. Mal jantou e já pensa em comida.

E mais ideias vieram. Foram. Chegaram e saíram. Viajei legal, enquanto meu corpo tratava de fazer sua rota usual de separar o que serviu e o que não serviu daquele rodízio de pizza.

Natural e finalmente vieram os puns. Tranquilos e sonoros. No som normal. Sem ter que segurá-los por etiqueta, por educação, respeito a ninguém. O meu olfato foi atingido com rapidez, mas o odor se misturou com o perfume da noite. Que bela opção eu fiz de escolher passar aqueles 15 minutos ali refletindo. 

Agora eu já podia dormir.

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